Fideísmo, o erro oposto ao cientificismo

Fideísmo, o erro oposto ao cientificismo

Artigo publicado na revista “O Mensageiro de Santo Antônio”. Abril/2013

A velocidade transformou-se na característica principal de nossa sociedade e em critério de qualidade. O novo apresenta-se automaticamente como melhor que o antigo. Os avanços tecnológicos se aplicam não apenas ao mundo exterior, mas de modo totalmente novo e radical ao ser humano. Realidades antes apenas contempladas na ficção entram em cheio na vida das pessoas. Problemas como os estudos com células-tronco, o aborto seletivo, a possível clonagem de seres humanos e a eutanásia são questões que saltaram do mundo acadêmico ou dos filmes e tocam o âmbito jurídico, político, social e econômico. O que dizer sobre tudo isso?
Será que o tecnologicamente possível é sempre eticamente viável? Será que a ciência e a ética estão completamente desconectadas? Será que a ética só pode ser entendida dentro de um contexto religioso e como tal deve ser rejeitada? Existe um ponto de racionalidade comum a todos os seres humanos da qual possa nascer uma ética universal independente de uma confissão religiosa específica? Buscar essa ética universal significa rejeitar a priori toda manifestação religiosa concreta, pois seria um obstáculo para a universalidade?

É inegável que a maioria dos confrontos de hoje em dia entre religião e ciência tem como campo de batalha a bioética. É muito natural que, diante de conflitos e problemas, busquemos logo soluções práticas. Contudo, uma ortopráxis sem uma ortodoxia mostra-se algumas vezes como contraproducente.

No Brasil, há um grande embate sobre a questão da vida. No ano passado, inúmeros grupos cristãos protestaram contra a decisão do Supremo Tribunal Federal em permitir o aborto em caso de bebês diagnosticados com anencefalia. Da mesma forma, protestaram contra o anteprojeto do novo Código Penal, que prevê um notável abrandamento da lei em relação ao aborto e deixa brechas para implantar a eutanásia no país. Por um lado, uma parte dos que defendem o aborto e a eutanásia considera que argumentos contrários a essas práticas pertencem a uma esfera da subjetividade religiosa e que não devem ser um critério objetivo para uma decisão em vista da promoção de uma sociedade justa. Por outro lado, uma parte dos cristãos que defendem a vida afirma que sua importância só pode ser percebida plenamente através da fé, elemento que falta aos que a atacam.

Apresentam-se assim duas posturas opostas: o fideísmo religioso e o racionalismo materialista-cientificista. Na dimensão de tal antagonismo não é possível o diálogo, pois são mundos incomensuráveis e com jogos de palavras próprios. No entanto, apesar de uma aparente divergência, há uma unidade de método, pois a lógica que impera em ambas é a do poder e da força. Como as duas posturas se apresentam equidistantes ou incomunicáveis, nunca se chegará a um consenso através da verdade, mas através da imposição e da propaganda.

A harmonia entre razão e fé, ciência e religião não é algo apenas a ser construído, mas sobretudo descoberto e manifestado. Não são dois elementos in se, separados. A comunhão entre esses dois campos brota da única natureza humana. Eles fazem parte do nosso ser e se manifestam em nosso pensar e agir. Uma ponte entre ciência e religião não precisa ser construída – ela já existe, pois o ser humano é o cidadão dos dois mundos. O ser humano é, em si, a ponte. Atacar a ciência e a razão, a fé e a religião é atacar, ao mesmo tempo, o ser humano.

Uma postura cientificista ou fideísta traz em si uma visão de ser humano que torna incompatível o diálogo entre ciência e religião, bem como consequências éticas terríveis para a humanidade. Meus colegas nesta coluna já comentaram em várias ocasiões o tema do cientificismo, a noção de que o único conhecimento válido é o que pode ser conferido empiricamente. Hoje, vamos nos dedicar ao erro oposto, o fideísmo, uma postura igualmente perigosa que nos conduz a uma visão de ser humano que cria ruptura entre a fé e a razão.

No fideísmo, a razão humana está de tal modo corrompida pelo pecado que lhe seria impossível alcançar qualquer verdade sobre Deus, sobre o mundo e sobre si mesmo, se não fosse por uma intervenção direta de Deus através da graça do Espirito Santo e da revelação contida na Sagrada Escritura, que deve ser estudada e interpretada literalmente, pois cada caractere bíblico é a manifestação exata e concreta da vontade de Deus. Essa postura nega qualquer importância de outras ciências como a História, a Paleontologia, a Filosofia, a Biologia e a Física como fontes de conhecimento verdadeiras e que, em certo modo, ajudam a uma melhor compreensão da fé. A vida humana só pode ser defendida desde o âmbito da Sagrada Escritura. Naturalmente o homem está privado de perceber com a luz da razão o valor e a dignidade da pessoa humana em si mesma.

Para o fideísta, o ser humano é um ser corrompido; sua dimensão racional e espiritual está completamente separada; e somente uma ação extrínseca (a ação divina) pode produzir verdade. Fora disso, qualquer outra ciência é uma construção puramente subjetiva e imperfeita. Novamente cria-se nessa postura dualista uma cisão entre ciência e religião, razão e fé.

A tendência geral ao fideísmo é muito forte e natural no âmbito das religiões, pois elas buscam constantemente escutar a voz de Deus para poder atuar. Desse modo, podem justificar que qualquer negação do estatuto de pessoa humana a um embrião desde a concepção se deve a uma corrupção da inteligência e da vontade que impede as pessoas de ver o caminho correto a seguir.

Poder-se-ia ressaltar que tanto o fideísmo quanto o materialismo possuem um mesmo fundamento. Uma desconfiança da razão, seja para captar a verdade das coisas naturais (como no fideísmo), como para captar a verdade das coisas sobrenaturais (como no cientificismo). Há uma impossibilidade intrínseca de diálogo entre esses dois mundos. Uma razão humana degradada e incapaz de descobrir (de modo apreensivo e não omnicompreensivo) a verdade das coisas em toda sua complexidade conduz à impossibilidade da existência de qualquer verdade absoluta. A filosofia hermenêutica presente na obra Verdade e Método, de Gadamer, é um exemplo. O homem constrói a verdade segundo seu grupo social e cultura, e este grupo, com “suas verdades”, constrói o homem e a verdade das coisas. A verdade é sempre mutável e não um termo ad quo, não há uma finalidade para a vida humana, mas apenas uma construção de algo caótico a um nada último.

Essa visão epistemológica se apresenta como fundamento do relativismo moral e do indiferentismo religioso. Quando tudo é verdade, não existe verdade. E, quando nada é objetivamente verdadeiro, todas as coisas são colocadas no mesmo plano, perdendo seu valor. Isso priva a racionalidade humana do principio de não contradição, conduzindo a humanidade a ações bárbaras. Sob a bandeira da tolerância, o relativismo implanta uma verdadeira ditadura da força e do poder. Pois, quando não há uma verdade como critério e medida de nossas ações, impera a verdade subjetiva dos mais fortes. Por isso, políticas e medidas sociais são implantadas não em vista de um bem comum, ou sob um critério de bondade e verdade, mas segundo pressões sociais, econômicas ou interesses privados. O homem volta-se contra o mesmo homem, pois, ferido em sua racionalidade, é incapaz de perceber as consequências de seus atos que vão contra a razão.

Tanto o fideísta quanto o cientificista/racionalista, convencidos da impossibilidade de um diálogo natural e enriquecedor entre os dois mundos, buscarão estratégias de poder e de dominação pela força. A ruptura entre ratio e fides é definitivamente uma ruptura entre a realidade material e espiritual, que se encontra unida na pessoa humana. Em nossas próximas colunas, voltaremos a esse tema.

Daniel Marques é seminarista da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Participou do VII Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, realizado em 2012 no Rio de Janeiro, e do Curso de Verão do Instituto Faraday para Ciência e Religião, da Universidade de Cambridge. Mestrado em Filosofia da Ciência e Cultura.

 

Atentado de Boston e Berkeley

“Esse est percipi” (só é aquilo que é percebido, de Berkeley)

Adaptando um pouco do significado da frase de Berkeley, percebo a importância da midia. Rezando pelo atentado ocorrido em Boston, mas também rezando muito por outros grandes atentados que não recebem tantos holofotes como as centenas de pessoas que são dizimadas diaramente na África, e pelos cristãos que são perseguidos e assassinados por causa de sua fé no Oriente. Seria muito bom também despertar para essa realidade. Nosso mundo, preocupações, desejos e orações não pode ser limitado ao pequeno mundo da mídia. Abramos nossos olhos.

Anjos e Milagres: O limite do amor é amar sem medida

Emocionei-me muito, pois enquanto passava a reportagem sobre esses dois milagres,  pensei em todos “anjos” como eles, mas que foram abortados.

“Marco Aurelio e Claudio nasceram com doenças graves e,  segundo os médicos, teriam poucas chances de sobreviver e chegar à vida adulta. Mas, contrariando todas as expectativas, com muita garra e a total ajuda da família , os dois conseguiram chegar lá.” (fonte: Fantástico)

“A anencefalia é ainda, nos dias de hoje, uma doença congênita letal, mas certamente não é a única; existem outras: acardia, agenedia renal, hipoplasia pulmonar, atrofia muscular espinhal, holoprosencefalia, ostogênese imperfeita letal, trissomia do cromossomo 13 e 15, trissomia do cromossomo 18. São todas afecções congênitas letais, listadas como afecções que exigirão de seus pais bastante compreensão devido à inexorabilidade da morte.” (Trecho do voto de Lewandowski contra a aprovação do aborto em casos de bebês com anencefalia)

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/04/com-paralisia-cerebral-jovem-frequenta-faculdade-com-o-pai-e-se-forma-em-jornalismo.html

Concilio Vaticano II no contexto histórico do século XX

Concilio Vaticano II no contexto histórico do século XX

Entrevista com o Prof. Dr. Rodrigo Coppe Caldeira, Historiador e Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

 

Caros amigos,

Publico uma entrevista que fiz ao Prof. Dr. Rodrigo Coppe sobre o Concilio Vaticano II, espero que gostem. Enviem seus comentários e sugestões para novas entrevistas com outros personagens e temas interessantes.  Ao final está o link para votarem no blog que está disputando o TOPBLOG 2012. Conto com a participação de vocês.

Abraços, Daniel

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Por Daniel Marques

RIO DE JANEIRO, sexta-feira, 02 de novembro de 2012 (link para a entrevistsa no ZENIT.org) – Publicamos a seguir a entrevista que o Prof. Dr. Rodrigo Coppe Caldeira, Historiador e Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, concedeu a ZENIT sobre o Concílio Vaticano II no contexto histórico do século XX.

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ZENIT: Poderia explicar o Concilio Vaticano II no contexto histórico do século XX?

Prof. Dr. Rodrigo: Entender o concílio num contexto histórico mais alargado é um esforço que venho fazendo. De fato, este esforço é necessário na medida em que se busque uma hermenêutica do concílio em que leve em conta tanto o seu lugar particular na história dos concílios da Igreja, sendo aquele que recepciona as determinações dos anteriores, e também como aquele que traz novas formas da Igreja pensar a si mesma e suas relações com o mundo contemporâneo. Dessa forma, é de central importância compreendê-lo numa convergência histórica que possibilite vizualizá-lo numa longa duração, sendo ele mesmo entendido como um “evento de recepção”, além, claro, de criador de novas possibilidades da Igreja caminhar e ser sinal na história humana. Lembro-me, assim, de vários movimentos eclesiais que abriram os caminhos para que a Igreja se pensasse e agisse de forma não mais apenas antinômica ao mundo, mas oferecesse outras perspectivas, atualizadas (aggiornamento), de compreensão de si, de formas de atuação, de encontro com a pluralidade contemporânea. Foram estes movimentos que se delinearam inicialmente no final do século XIX e início do XX, como o movimento litúrgico, o bíblico, o teológico, especialmente com a emergência da eclesiologia de comunhão, o leigo, com cada vez mais ativa participação dos fieis na obra evangélica, que serão recepcionados no Vaticano II em várias de suas perspectivas.

ZENIT: Cada período histórico possui sua própria modernização, entendida como período de mudanças sociais, políticas, culturais, econômicas e religiosas. O que a história nos ensina sobre o esforço da Igreja Católica em dialogar com esse mundo em mudança?

Prof. Dr. Rodrigo: Utilizando-se de uma linguagem teológica, podemos dizer que a Igreja age no mundo a partir da atuação do Espírito Santo. A Igreja peregrina, assim, mantém viva a força do Evangelho durante os séculos a partir da sua capacidade em se adptar aos meios mais adversos. O Vaticano II – inclusive compreendido como um “novo Pentecostes” por João XXIII, o papa que o convocou – representa mais um destes momentos históricos que exigem da Igreja uma resposta, uma transformação, uma conversão, a fim de que se torne mais fiel ao Evangelho e que, a partir de uma linguagem que seja compreensível ao homens contemporâneos, possa se fazer presença, inspirando-os sempre e mais profundamente a vivê-lo de maneira criativa e fiel.

ZENIT: Quais as novidades do CVII? O que significa interpretar o CVII? É possível compreender e interpretar o CVII sem considerar o processo de recepção?

Prof. Dr. Rodrigo: Eis a pergunta que não quer calar, e é bom que não se cale, pois isso demonstra que estamos pensando o concílio e as maneiras de recepcioná-lo. São inúmeras as transformações da Igreja como evento conciliar. E aqui cito algumas: redescoberta da teologia patrística, a compreensão da Igreja como comunhão de fiéis, não apenas uma instituição jurídica visível, mas Corpo Místico de Cristo, a abertura ao diálogo ecumênico e interreligioso, a compreensão da positividade da liberdade religiosa, a centralidade da Palavra de Deus, entre muitas outras.

Interpretar o Vaticano II já é em si um ato de recepção do concílio. Assim, especialmente depois do discurso de Bento XVI aos cardeais no Natal de 2005, quando o papa fez referência às hermenêuticas do concílio, os debates sobre a temática vêm crescendo entre teólogos e historiadores. Assim, todo processo de recepção é um ato interpretativo que se dá tanto no âmbito do Magistério da Igreja, como também entre as Igrejas Particulares, que, em seu contexto sócio-político, econômico e cultural, lêem e interpretam  – ou seja, recepcionam – as determinações conciliares, encarnando suas principais intuições em função da realidade circundante. Observem, por exemplo, a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín ocorrida em 1968. Esse grande encontro é compreendido como um ato interpretativo do concílio para a realidade de nosso continente. O que o concílio nos diz, o que ele traz para a nossa realidade

ZENIT: O que se pode dizer do CVII como evento lingüístico?

Prof. Dr. Rodrigo: A tese que compreende o Vaticano II como um evento linguístico é do padre norte-americano John O’Malley. Esta é apenas mais uma forma, entre tantas outras, de se interpretar o Vaticano II, de fato, muito plausível. Entender o Vaticano II como um “evento linguístico” é tentar a partir da linguagem dos textos conciliares, de sua retórica, compreender o seu “espírito”, o “espírito do concílio”. Segundo O’Malley, ocorre com o Vaticano II um “dramático deslocamento de estilo”, uma nova maneira de pensar a relação entre a Igreja e o mundo, não marcado por anátemas, mas por relação convidativa, aberta e dialogal. Outras palavras que aparecem nos documentos finais e trazem esta perspectiva inaugurada por Roncalli em seu discurso de abertura do concílio são “desenvolvimento”, “progresso” e até mesmo “evolução”. Palavras que assinalariam o deslocamento perpetrado pelo concílio. Notavelmente, em seus textos, não estão presentes palavras de exclusão, inimizade, intimidação, punição e vigilância. Dessa forma, entendido como um evento linguístico , o Vaticano II transformou o modo da Igreja falar do mundo e com o mundo, e palavras como “cooperação”, “parceria”, “colaboração” e “diálogo” são constantes em seus documentos para definir esta relação.

ZENIT: Você considera que apesar dos 50 anos do CVII ainda não existe um debate que permita uma compreensão da complexidade e importância desse evento?

Prof. Dr. Rodrigo: Surge, aqui e ali, algumas falas que tentam desqualificar o evento. Porém é possível notar que Bento XVI está muito atento a estas questões. Ao meu juízo, a temática do concílio é a principal na agenda do atual papado, como também já o era no do beato João Paulo II. Acredito que o debate se aprofunda cada vez mais, já que a recepção do Vaticano II é crucial para a Igreja do terceiro milênio. Todavia, é preciso estar atentos aos termos do debate e o lugar do concílio na história bimilenar da Igreja.

Para maiores informações sobre essa entrevista: www.cienciafecultura.org; contato@cienciafecultura.org

 

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A pessoa humana como ponte entre a Ciência e a Fé. (I)

A pessoa humana como ponte entre a Ciência e a Fé. (I)

Caros amigos, publicarei aos poucos o comunicado que fiz no VII Congresso Latino Americano de Ciência e Religião desenvolvido na PUC-RJ em parceira com a universidade de OXFORD e o Instituto TEMPLENTON.

Apresentei como proposta a necessidade de resgatar um debate profundo sobre o significado da pessoa humana como fundamento para um diálogo harmonioso entre ciência e religião.

Deixo a introdução. Espero que gostem. Escrevam seus comentários e críticas.

Abraços, Daniel

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INTRODUÇÃO

A velocidade transformou-se na característica principal de nossa sociedade e critério de qualidade. O novo apresenta-se automaticamente como melhor do que o antigo. Os avanços tecnológicos se aplicam não apenas ao mundo exterior, mas de modo totalmente novo e radical ao ser humano. Realidades antes apenas contempladas na ficção entram de cheio na vida das pessoas. Problemas como os estudos com células-tronco, o aborto seletivo, a possível clonagem de seres humanos, a eutanásia são questões que saltaram do mundo acadêmico ou dos filmes e tocam o âmbito jurídico, político, social e econômico. O que dizer sobre tudo isso?

Será que o tecnologicamente possível é sempre eticamente viável? Será que a ciência e a ética estão completamente desconectadas? Será que a ética só pode ser entendida dentro de um contexto religioso e como tal deve ser rejeitada? Existe um ponto de racionalidade comum a todos os seres humanos do qual posso nascer uma ética universal independente de uma confissão religiosa específica? Buscar essa ética universal significa rejeitar “a priori” toda manifestação religiosa concreta, pois seria um obstáculo para a universalidade?

Este comunicado não é sobre os problemas bioéticos, no entanto, é inegável que a maioria dos confrontos entre religião e ciência tem como campo de batalha a bioética. É muito natural que diante de conflitos e problemas, busquemos logo soluções práticas. Contudo, uma “ortopraxis” sem uma “ortodoxia” mostra-se algumas vezes como contraproducente.

No Brasil, há um grande embate sobre a questão da vida. Há alguns meses, inúmeros grupos cristãos protestaram contra a decisão do Supremo Tribunal Federal em permitir a antecipação terapêutica do parto em caso de bebês diagnosticados com anencefalia (ADPF, no. 54). Atualmente, protestam contra o anteprojeto do novo código penal onde prevê um notável abrandamento da lei em relação ao inicio da vida (aborto) e ao final desta (proposta de implantar a eutanásia no país).

Por um lado, uma parte dos que defendem o aborto e a eutanásia considera que argumentos em contra a estas práticas pertencem a uma esfera da subjetividade religiosa e que não devem ser um critério objetivo para uma decisão em vista da promoção de uma sociedade justa. Por outro lado, uma parte dos cristãos que defendem a vida afirma que sua importância só pode ser percebida plenamente através da fé, elemento que falta aos que a atacam.

Apresentam-se assim duas posturas opostas: o fideísmo religioso e o racionalismo-materialista-cientificista. Na dimensão de tal antagonismo não é possível o diálogo, pois são mundos incomensuráveis e com jogos de palavras próprios. No entanto, apesar de uma aparente divergência há uma unidade de método, pois a lógica que impera em ambos é a do poder e da força. Como as duas posturas se apresentam equidistantes ou incomunicáveis, nunca se chegará a um consenso através da verdade, mas através da imposição e da propaganda.

pergunta original e que fará parte de nossa discussão é a seguinte? Que consequências podem surgir do conceito de pessoa humana fundado numa certa posição cientificista/materialista? Que consequências podem surgir de uma posição fideísta? E o objetivo é mostrar que a harmonia entre razão e fé, ciência e religião não deve ser algo apenas a ser construído, mas sobretudo, descoberto e manifestado. Não são dois elementos in se, separados, mas brotam da comum natureza humana. Fazem parte do nosso ser e que se manifestam em nosso agir e pensar. Uma ponte entre ciência e religião não precisa ser construída, ela já existe, pois o ser humano é o cidadão dos dois mundos, o ser humano é, em si, essa ponte. Atacar a ciência e a razão, a fé e a religião é atacar ao mesmo ser humano.

Comecemos então por explicitar o que é cientificismo racionalista e suas consequências práticas, depois o exporemos sobre o fideísmo. Por último, a proposta de uma visão de ser humano que manifeste em si uma harmonia entre material e espiritual, entre a dimensão horizontal e vertical.

 

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