A pessoa humana como ponte entre a Ciência e a Fé. (I)

A pessoa humana como ponte entre a Ciência e a Fé. (I)

Caros amigos, publicarei aos poucos o comunicado que fiz no VII Congresso Latino Americano de Ciência e Religião desenvolvido na PUC-RJ em parceira com a universidade de OXFORD e o Instituto TEMPLENTON.

Apresentei como proposta a necessidade de resgatar um debate profundo sobre o significado da pessoa humana como fundamento para um diálogo harmonioso entre ciência e religião.

Deixo a introdução. Espero que gostem. Escrevam seus comentários e críticas.

Abraços, Daniel

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INTRODUÇÃO

A velocidade transformou-se na característica principal de nossa sociedade e critério de qualidade. O novo apresenta-se automaticamente como melhor do que o antigo. Os avanços tecnológicos se aplicam não apenas ao mundo exterior, mas de modo totalmente novo e radical ao ser humano. Realidades antes apenas contempladas na ficção entram de cheio na vida das pessoas. Problemas como os estudos com células-tronco, o aborto seletivo, a possível clonagem de seres humanos, a eutanásia são questões que saltaram do mundo acadêmico ou dos filmes e tocam o âmbito jurídico, político, social e econômico. O que dizer sobre tudo isso?

Será que o tecnologicamente possível é sempre eticamente viável? Será que a ciência e a ética estão completamente desconectadas? Será que a ética só pode ser entendida dentro de um contexto religioso e como tal deve ser rejeitada? Existe um ponto de racionalidade comum a todos os seres humanos do qual posso nascer uma ética universal independente de uma confissão religiosa específica? Buscar essa ética universal significa rejeitar “a priori” toda manifestação religiosa concreta, pois seria um obstáculo para a universalidade?

Este comunicado não é sobre os problemas bioéticos, no entanto, é inegável que a maioria dos confrontos entre religião e ciência tem como campo de batalha a bioética. É muito natural que diante de conflitos e problemas, busquemos logo soluções práticas. Contudo, uma “ortopraxis” sem uma “ortodoxia” mostra-se algumas vezes como contraproducente.

No Brasil, há um grande embate sobre a questão da vida. Há alguns meses, inúmeros grupos cristãos protestaram contra a decisão do Supremo Tribunal Federal em permitir a antecipação terapêutica do parto em caso de bebês diagnosticados com anencefalia (ADPF, no. 54). Atualmente, protestam contra o anteprojeto do novo código penal onde prevê um notável abrandamento da lei em relação ao inicio da vida (aborto) e ao final desta (proposta de implantar a eutanásia no país).

Por um lado, uma parte dos que defendem o aborto e a eutanásia considera que argumentos em contra a estas práticas pertencem a uma esfera da subjetividade religiosa e que não devem ser um critério objetivo para uma decisão em vista da promoção de uma sociedade justa. Por outro lado, uma parte dos cristãos que defendem a vida afirma que sua importância só pode ser percebida plenamente através da fé, elemento que falta aos que a atacam.

Apresentam-se assim duas posturas opostas: o fideísmo religioso e o racionalismo-materialista-cientificista. Na dimensão de tal antagonismo não é possível o diálogo, pois são mundos incomensuráveis e com jogos de palavras próprios. No entanto, apesar de uma aparente divergência há uma unidade de método, pois a lógica que impera em ambos é a do poder e da força. Como as duas posturas se apresentam equidistantes ou incomunicáveis, nunca se chegará a um consenso através da verdade, mas através da imposição e da propaganda.

pergunta original e que fará parte de nossa discussão é a seguinte? Que consequências podem surgir do conceito de pessoa humana fundado numa certa posição cientificista/materialista? Que consequências podem surgir de uma posição fideísta? E o objetivo é mostrar que a harmonia entre razão e fé, ciência e religião não deve ser algo apenas a ser construído, mas sobretudo, descoberto e manifestado. Não são dois elementos in se, separados, mas brotam da comum natureza humana. Fazem parte do nosso ser e que se manifestam em nosso agir e pensar. Uma ponte entre ciência e religião não precisa ser construída, ela já existe, pois o ser humano é o cidadão dos dois mundos, o ser humano é, em si, essa ponte. Atacar a ciência e a razão, a fé e a religião é atacar ao mesmo ser humano.

Comecemos então por explicitar o que é cientificismo racionalista e suas consequências práticas, depois o exporemos sobre o fideísmo. Por último, a proposta de uma visão de ser humano que manifeste em si uma harmonia entre material e espiritual, entre a dimensão horizontal e vertical.

 

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