Semana em Cambridge

Uma semana em Cambridge
Pelo jornalista Márcio Campos
Fonte: Blog Tubo de Ensaio

Já está rolando, no Rio de Janeiro, o VII Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião. Pude participar da edição anterior desse evento, na Cidade do México, e tive a chance de fazer uma apresentação curta. Este ano não fui ao Rio, mas um amigo, o seminarista Daniel Marques, está lá; sua apresentação está marcada para amanhã.

O Daniel está repetindo em 2012 o caminho que eu trilhei em 2011. Vocês se lembram que, antes de ir ao México, eu tinha feito um curso em Cambridge, graças a uma bolsa concedida pelo Instituto Faraday. Em julho deste ano, foi a vez do Daniel ganhar uma bolsa. Recentemente, ele escreveu um relato para o Tubo, que publico hoje, desejando-lhe sucesso em sua participação no Rio.

Cambridge, excelência com herança cristã

Por Daniel Marques

Para quem é fã da ciência e da cultura, não há melhor oxigênio que passear ao fim da tarde nos colleges da Universidade de Cambridge. Caminhar pelos mesmos corredores por onde passou uma eminência da ciência como o pai da Física moderna, Isaac Newton. Ver, na capela do Trinity College, a estátua de Francis Bacon, um dos fundadores do método científico. Descobrir um pouco mais quem é Peter Higgs, postulador do bosón de Higgs. É maravilhoso contemplar as mesmas paisagens que inspiraram o filósofo Bertrand Russell, o economista Amartya Sen e o biólogo Charles Darwin. E nada melhor que rezar na capela onde celebrava missa diariamente o sacerdote George Lemaître, que postulou a teoria do Big Bang. E, para concluir, ir com os amigos ao The Eagle, bar onde os descobridores da estrutura do DNA, Francis Crick e James Watson, tomavam uma boa cerveja. A lista poderia continuar com pessoas como Stephen Hawking e Alan Turing, já que esta eminente universidade possui 87 acadêmicos só na lista de ganhadores do prêmio Nobel.
Foi nesta cidade universitária que tive a oportunidade de participar, durante uma semana no mês de julho, de um congresso promovido pelo Faraday Institute for Science and Religion, cujo objetivo é promover uma pesquisa interdiciplinar para maior compreensão da relação entre ciência e religião através de cursos, conferências, debates, palestras e seminários. Ganhei viagem e hospedagem gratuitas para o curso de verão “Science and Religion – the view both ways”. Lá pude conhecer e conviver com pessoas de diversas partes do mundo e de diferentes credos – e também ateus. O que nos unia era a convicção intelectual de que o ser humano é o maior beneficiado pela promoção de um frutuoso diálogo entre ciência e religião. Diálogo que implica purificar tanto a nossa noção de ciência quanto a concepção de religião, para assim não cair no perigo de um fideísmo fundamentalista ou de um cientificismo irracional.

Ideia esta que trazia comigo desde meu mestrado em Filosofia da Ciência, e que foi confirmada pelos 20 conferencistas de importantes universidades do mundo. Cito alguns para compreender a importância e altura acadêmica de tal congresso: o reverendo dr. John Polkighorne, teólogo e um dos físicos que ajudou na descoberta dos quarks, ressaltou a importância de uma boa compreensão filosófica que permita criar a ponte entre ciência e religião. O dr. Peter Clarke, pesquisador e professor no Departamento de Biologia Celular e Morfologia da Universidade de Lausanne (Suiça), falou sobre “o cérebro, uma máquina neurológica”. Defendeu a tese de que toda a riqueza e beleza do ser humano não pode ser reduzida a seu cérebro, apresentando as pesquisas mais recentes sobre este campo.

O dr. Paul Shellard, PhD em Cosmologia pela Universidade de Cambridge, fez seu pós-doutorado no MIT e atualmente é pesquisador e coordenador do Departamento de Matemáticas Aplicadas e Teorias Físicas da Universidade de Cambridge, diretor do projeto Cosmos e trabalha junto com Stephen Hawking. Falou sobre o princípio antrópico e o imenso conjunto harmônico de elementos e constantes físicas que foram necessários para que surgisse o universo como conhecemos. Além deles, contamos com a presença da dra. Jennifer Wiseman (reponsável pelos estudos dos exoplanetas e estrelas da Nasa); o dr. Alister McGrath e o dr. Ian Hutchinson (professor de Ciência e Engenharia Nuclear no MIT).

Os temas foram os mais diversos. Versaram sobre o livre arbítrio, a existência de vida extraterrestre, o determinismo científico, o evolucionismo, a inteligência artificial, o significado da pessoa humana, paleontologia, genética e comportamento humano. O mais importante era que cada tema foi ministrado por um especialista de renome mundial, dando credibilidade aos trabalhos e afirmações propostas.

Deste modo, pude ver claramente que em diversas partes do mundo existe um trabalho sério e academicamente respeitável que busca desenvolver o estudo, compreensão e promoção de uma sadia relação entre ciência e religião. Esta realidade está chegando ao Brasil através do VII Congresso Latino Americano sobre Ciência e Religião promovido na PUC-RJ em parceria com a Universidade de Oxford. Nele estarão presentes grandes acadêmicos que não tratam com superficialidade este assunto, como os professores Peter Harrison, Ronald Numbers e Marcelo Gleiser.

Cambridge é, em si mesma, um grande monumento vivo e visível dos frutos que podem surgir quando se promove uma relação saudável entre ciência e religião. Os grandes acadêmicos que existiram e existem nesta cidade vivem da herança cristã. Eles seguem um horário e dedicação similares aos dos monges da Idade Média que fundaram os colleges. São como consagrados aos estudos. Os mesmos colleges possuem a arquitetura de verdadeiros mosteiros com claustro, capela, coro, refeitório comum e habitações individuais. Nas grandes festas, as refeições são precedidas e finalizadas com orações em latim.

Cada estudante possui um tutor, imitando a figura do diretor espiritual, que guiava individualmente seu pupilo. Muitas destas práticas podem ter caído no ritualismo e no tradicionalismo. Mas é impossível entender Cambridge e sua excelência acadêmica sem sua herança cristã, que oferece a disciplina para a reflexão acadêmica e a abertura de espírito que impulsiona ao ser humano a buscar a verdade e a desenvolver e promover o conhecimento.

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Originais de Newton num clique

Imagine você colocar as mãos nos originais de Newton, o pai da física moderna? Pois bem, agora num clique é possível colocar pelo menos o mouse e desfrutar dos originais.

Não será necessário gastar horas numa viagem atlântica, nem juntar muito dinheiro para ir pessoalmente a Cambridge, e muito menos gastar tempo e papel para pedir infinitas permissões para manusear os escritos. Apesar de que, se você pode ir a Cambridge, aproveite, pois é um lugar espetacular.

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Toda estas facilidades se devem ao projeto da Biblioteca Digital de Cambridge, que pouco a pouco está digitalizando e colocando a disposição do grande público o original de grandes obras da humanidade.

Entre agora no link abaixo e desfrute dessa oportunidade única. Ver as anotações de Newton quando estudava no Trinity College, folhear (ou mousear, seria certo?) o original da obra “Princípios Matemáticos”.

Desde logo, se deseja entender deve ter o inglês ou latim bem afiado, e além disso um curso para decifrar letras feito na Scotland Yard, pois nem médico escreve daquele jeito.

Quem vai ser o primeiro a contemplar os originais?

LINK PARA CAMBRIDGE DIGITAL LIBRARY – NEWTON PAPERS

 

Você também pode ganhar uma bolsa para fazer um curso de ciência e religião em Cambridge

Muitos me perguntaram o que eu fiz para ganhar uma bolsa de Cambridge, onde fiz um curso sobre ciência e religião. Pois bem, agora é o momento de revelar meu segredo, pois se eu fui você também pode ir.

Na universidade de Cambridge existe o Faraday Institute, associado ao St. Edmund’s College (o único “college” católico em Cambridge). O objetivo deste instituto é promover o diálogo entre ciência e fé. Para isto, organiza constantes cursos sobre a temática e oferece bolsas para quem passar pela criva do curriculum. Na verdade é muito simples, você entra na página, escolhe o curso que mais lhe interessa e preenche o formulário pedindo a bolsa, que pode ser parcial ou total. Entre na pagina web do instituto e aproveite esta oportunidade também (link para a página).

Participei do curso de verão No.7: Science and Religion: the View Both Ways (confira o programa aqui). Em 5 dias, foram 20 conferências, cada ponência com um personagem de peso, com currículos e investigações desenvolvidas nos mais variados campos do saber, como a  física, astronomia, biologia, história e filosofia. Tive a graça de conhecer pessoas como John Polkinghorne (confira artigo aqui), o prof. John Brooke (editor do British Journal for the History of Science, e membro fundador da Oxford Centre for the Science of the Mind), Prof. Alister McGrath (bioquímico, teólogo e especialista em  Neo Ateísmo), Dr. Jennifer Wiseman (astrônoma da Nasa e responsável pela busca de vida nos exoplanetas), entre outros.

Fiquei feliz em descobrir que minha voz não clama no deserto, mas existem muitas pessoas, das mais variadas crenças e não crenças, interessadas em desenvolver um diálogo entre ciência e fé. Estas consideram como nociva para a humanidade uma separação que conduz a uma esquizofrenia do pensamento e tem como consequência o relativismo ético e o empobrecimento espiritual, intelectual e moral do ser humano.

Promover o diálogo entre ciência e fé é confrontar-se sinceramente com o que existe de mais profundo no espírito humano e descobrir que em nosso interior existe algo mais, algo que não se reduz a uma soma de células, neurônios, sangue e suor.

Por último, não posso deixar de agradecer ao meu amigo, o Jornalista Márcio Campos da Gazeta do Povo, e criador do premiado Blog Tubo de Ensaio. Assim como ele me passou a dica e meu deu muitos conselhos e apoio, também é minha vez de retribuir o favor agradecendo e passando a bola para vocês. Aproveitem essa oportunidade.

Publicado por: Daniel Marques

É possivel um diálogo entre a ciência e a fé?

Alguns defendem a impossibilidade de qualquer relação ou diálogo entre ciência e fé. A fé seria apenas um aspecto subjetivo de nossa vida, ou um forma psicológica e infantil de fugir da realidade do mundo, que é descrito em forma lógica e matemática. Nesta visão, a ciência seria a única e real fonte de verdade e a fé seria apenas a manifestação de uma adesão infantil a um ser imaginário.

Não é o que pensa o Rev. Dr. John Polkinghorne, sacerdote anglicano, físico e teólogo. Deixo abaixo uma breve descrição desta personalidade que apresenta sólidos argumentos que permitem abrir um horizonte de diálogo entre a ciência e a fé. Em suas palavras, afirma: “podemos olhar o mundo com os olhos da ciência e da fé. Ambas nos conduzem a verdade.”

O Reverendo Dr. John Polkinghorne trabalhou como físico teórico das partículas elementares por 25 anos e como professor de Física Matemática na universidade de Cambridge (1968-1979). Foi eleito como membro da Royal Society em 1974. Em 1979, Polkighorne deixou suas pesquisas e posição universitária para entrar no seminário Anglicano. Foi ordenado em 1982.

Depois de alguns anos como pároco, ele volta a Cambridge para trabalhar com questões sobre ciência e religião, um assunto sobre o qual escreveu muitos livros. Em 1996, retira-se como presidente do Queen’s College, em Cambridge e é nomeado Cavaleiro em 1997. Recebe diversos doutorados Honoris causa: Kent (1994), Durham (1999), Exeter (1994), Leicester (1995), Marquete (2003).

Faz parte de diversos comitês de governamentais de ética e assuntos sociais. Ganhou o prêmio Templenton e fundou a Sociedade de Cientistas ordenados, e foi o presidente e fundador da Sociedade Internacional de Ciência e Religião.

Suas pesquisas foram importantes para a descoberta do quarks, na analise da Integral de Feymman e nos fundamentos da teoria S-Matrix. Trabalhou também em Princenton, Berkeley, Sanford e no CERN em Gênova.

Seleção de algumas publicações sobre Ciência e Religião:

Science and Providence (SPCK, 1989) – re-published by Templeton Foundation Press 2005.
Reason and Reality (SPCK, 1991)
Science and Christian Belief (SPCK, 1994) In the US – The Faith of a Physicist (Princeton University Press, 1994)
Quarks, Chaos and Christianity (Triangle, 1994)
Beyond Science (Cambridge University Press, 1996)
Belief in God in an Age of Science (Yale University Press, 1998)
Science & Theology (SPCK, 1998)
Traffic in Truth – Exchanges between Theology and Science (Canterbury Press 2000; Fortress, 2002)
Faith, Science, and Understanding (SPCK/Yale University Press, 2000)
The God of Hope and the End of the World (SPCK/Yale University Press 2002)
Science and the Trinity (SPCK/Yale University Press 2004)
Exploring Reality: The Intertwining of Science & Religion (SPCK/Yale University Press 2005).

Seleção de alguns escritos científicos:

The Quantum World (Longman 1984; Princeton University Press, 1985; Pelican Books, 1986; Penguin Books, 1990; Czech, Greek, Italian, Japanese and Portuguese translations).
Quantum Theory – a very short Introduction (Oxford University Press, 2002; Arabic, Czech, Dutch, German and Serbocroat translations)

Os “colleges” em Cambridge, verdadeiro seminários para a formação acadêmica

 

Nesta foto estou na capela do Trinity College em Cambridge com meu amigo Newton. Um dos estudantes deste college que tem, pasmem-se, “apenas” 32 prêmios nobel. Por isso, considerado o mais importante. (cf. a lista )

Na verdade, cada College (31 colleges ao todo) puxa a sardinha para o seu lado. Um por ser o mais antigo, outro por ser o maior, outro por ter a capela mais importante, outro por ter sido fundando pela familia de Darwin, etc.

O college não se limita a ser apenas um dormitório para os estudantes. Mas são verdadeiros castelos (quase todos) ao estilo dos antigos e grandes mosteiros. Por isso, em todos tem sua “pequena” capela.

Neles os alunos recebem a assistência de tutores exclusivos e são incentivados ao estudo e a pesquisa.  Por isso, eles não perdem tempo com nada. Moram perto dos institutos onde tem as aulas, cada aluno tem seu quarto, pessoas para limpá-lo, lavanderia e refeitório. Verdadeiros “seminários”. E muitos deles, eram mesmo seminários das congregações.

Todos (que existiam na época da separação) eram católicos até serem retirados por Henrique VIII, criador da Igreja Anglicana (aqui chamada também de Igreja oficial).